
Os cabelos molhados escorriam pelo seu rosto, podia sentir as gotas da chuva engrossar a cada passo que dava, estava a poucos quarteirões de sua casa, mas com a rua alagada era quase impossível chegar sem que precisasse nadar até o outro lado.
Resolveu por esperar a chuva passar; o primeiro lugar que seus olhos fitaram, foi uma pequena loja de antiguidades a poucos passos, cuja fachada exibia um mal iluminado e antigo letreiro, com os dizeres: A lâmpada mágica – Raridades.
Com medo de quebrar o silêncio oco do ambiente, fechou a porta às suas costas com suavidade; o lugar era iluminado apenas por uma lâmpada, uma luz fraca que trepidava no teto. Caminhou lentamente entre as prateleiras ,que sustentavam de porcelanas a coisas nunca antes vistas por ela. Havia diversos objetos excêntricos no lugar, mas os olhos de Catherine se fixaram em. um especial... Era uma espécie de apanhador de sonhos, adornado com algumas pedrinhas cristalinas, no centro, uma pedra maior , também cristalina, mas essa cintilava estranhamente. Chegou mais perto... Pôde ver seus olhos refletidos, pareciam vibrar com o brilho , afastou-se um pouco mais, viu seu rosto inteiro, percebeu que seus lábios tinham um sorriso desconhecido, como se fosse o de outra pessoa, sentiu um calafrio... Por um momento, teve a impressão de estar maior, mas logo em seguida sentiu-se mínima e frágil... Seus olhos no reflexo brilhavam nitidamente,seu rosto tinha um ar brincalhão, quase debochado... Por um segundo sentiu-se confusa e fraca, mas a sensação logo foi substituída por uma vontade súbita de fechar os olhos, estava parada em frente a um objeto simples , como outro qualquer, mas era como se soubesse as respostas para todas as perguntas do universo... Sentiu-se cheia de algo que não sabia o que era, mas que dava a ela uma vontade especial de viver.
_ É melhor tirar os olhos daí... _ Uma voz masculina quebrou o silêncio de repente.
Catherine assustou-se, piscou os olhos como se tivesse acabado de acordar...
O homem se aproximou calmamente... Seus olhos escuros passavam confiança ...continuou...
_ Ou se perderá pra sempre em teus pensamentos...
Catherine sorriu sem graça...
_ Falo sério, encantamos-nos facilmente com coisas mínimas , de brilho grandioso...
Elas nos lembram claramente a beleza de tudo o que existe, mas de tão encantados, queremos ficar presos a elas para sempre, nos agarramos pois achamos que toda a verdadeira beleza é parte delas, esquecemos que elas são apenas parte de tudo o que é belo, e de que estamos cercados de cores e brilhos fabulosos, por toda a parte.
Catherine sorriu envergonhada, sem saber o que dizer...
Disfarçou, perguntando timidamente o preço de algumas pratarias antigas, olhou pela vitrine, a chuva ainda não havia parado, mas achou melhor sair...
Pois os pés para fora e sentiu novamente o vento frio cortar seu rosto, as gotas ,agora mais suaves, molhavam sua pele... Sentiu a sensação de estar completa outra vez...
O frio e a chuva eram mais ,ou igualmente tão belos ,quanto o calor e os dias de sol.
Lembrou-se das palavras do homem e sorriu.
Eliberto nasceu prematuro de sete meses, com o cordão umbilical enrolado no pescoço...
Os pais do garoto decidiram que se a criança sobrevivesse receberia o nome de Eliberto, que simbolizaria a liberdade.
"O liberto”, na verdade o pai queria batizá-lo assim, mas a mãe achou que a letra "E" no lugar da letra “O” soaria melhor. O pai não discutiu e hoje Eliberto já é homem feito, mas apesar do belo nome, não se considera um homem livre.
Se sente escravo do seu emprego mecânico e de sua rotina maçante, se sente preso pelo cordão umbilical da mãe sociedade, em meio a um punhado de regras que ele não inventou.
Hoje Eliberto pensou em fugir e dar finalmente seu grito de liberdade, mas lembrou-se das crenças dos pais as quais fora submetido a acreditar durante toda a sua infância...
Havia um homem sentado em alguma nuvem lá no alto, que tudo podia ver...E este homem (chamavam-no de Deus), tinha leis, com punições severas para quem as desrespeitasse.
Fugir do emprego só dependia dele, poderia ser mais fácil se ele tivesse juntado algumas economias...
Fugir da sociedade ele não tinha idéia de como fazer, mas pensava não ser algo impossível...
Mas como fugir de olhos tão grandes, que estão por toda a parte?
Eliberto começa a achar que é impossível ser realmente liberto,
Pensou que talvez esse não fosse realmente seu destino...
Mas espera aí!Um homem livre é comandado por seu destino?
Isso não faria dele um homem preso a correntes invisíveis?
Ah, aquela letra "O" agora faria toda a diferença...
Eliberto estava prestes a desistir.
Sentou-se em uma calçada qualquer, e pensou por horas e horas, até chegar a uma conclusão aparentemente óbvia...
Ele não sabia o que era liberdade...
Mas de uma coisa ele tinha certeza, independente do que isso fosse, ele sabia que não era coisa que pudesse ser alcançada por aqui, por este mundo.
Eliberto achava que liberdade era transcendente, era coisa que só podia estar em algum lugar lá fora.

"Caminhando e cantando e seguindo a canção."
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